Bem, o Tiësto sempre foi dos meus DJs/Produtores preferidos. Depois de um verdadeiro álbum de trance, o In My Memory (2001), da masterpiece que foi o Just Be (2004) e da sensaboria (excepção feita a um par de faixas) do Elements Of Life (2007), volta com um Kaleidoscope. O nome poderia indicar que dada a quantidade vocalistas convidados, era de esperar alguma diversidade de estilos, talvez consoante o género em que o artista convidado melhor se insere.
Não - pelo menos na maior parte do álbum. Analisando faixa-a-faixa:
Kaleidoscope - O vocalista é o Jonsi, dos Sigur Rós, e existem influências da banda, ou pelo menos do vocalista, óbvias em toda a faixa. O tipo de registo vocal, arrastado, a melodia, ...
É das melhores faixas do álbum e das melhores do Tiësto talvez desde a Somewhere Inside. Um opus de 8 minutos, em que 5 são um puro bliss e os últimos três um electro-trancey decente. Muito, muito bom. 9,5/10
Next.
Escape Me (feat. CC Shefield) - Meh. A faixa é gira, mas é tão catchy quanto vulgar. Apesar do timbre da CC Shefield ser interessante, a melodia, os riffs de electro são medianos e nada inovadores. 5.5/10
You Are My Diamond (feat. Kianna) - NÃÃO! O próprio Tiësto já admitiu que se o álbum fosse lançado agora e não em Outubro, tinha retirado esta faixa e a I Will Be Here (curiosamente, o primeiro single). Esta You Are My Diamond é uma desilusão. Note-se, não é o apocalipse, a Kianna dos Tiny and the Wall não desafina (embora lance uns berros a cantar "I'm with you everydaaaay, so everydaaaay I shine so bright" - este verso já ilustra a pobreza lírica desta faixa, btw.) mas quem já produziu álbuns como Just Be devia ser açoitado em público depois de lançar uma faixa destas. 4/10
I Will Be Here (feat. Sneaky Sound System) - Os próximas artistas convidados são australianos. Bem, não sei porque é que o Tiësto queria excluir agora esta faixa. É um "power-electro" mediano. Ok, os synths do refrão são de qualidade duvidosa, e a faixa em si parece mais preocupada em ser radio-friendly, com os breakdowns a atropelarem os build-ups e vice-versa. (Breakdown - parte sem batida; build-up - introdução de elementos, rítmicos ou não, que de algum modo preparem o ouvinte para o reaparecimento da batida). À parte disso, acho que há uma harmonia bem conseguida entre a letra e a música - especialmente no refrão, a melodia consegue transmitir o mesmo sentimento da letra. 6/10
I Am Strong (feat. Priscilla Ahn) - Está no meu Top 5 deste álbum, no que toca aos vocais. A voz da Priscilla Ahn é perfeita, e o início capta imediatamente a atenção. Só é pena o break com aquele synth não ter maior duração, para salientar mais a voz. De resto, nada a acrescentar. 8/10
Here On Earth (feat. Cary Brothers) - Não sendo inesquecível, nem por isso deixa de ser bem conseguida e com alguns efeitos originais que adicionam interesse à faixa (aquilo no início é um despertador?). É um vocal prog-house que deveria influenciar mais os produtores deste género. 7/10
Always Near - É um excelente outro para a Here On Earth. Tanto a versão do álbum como a versão mais longa são sublimes. Óptimo instrumental e exploração do tema. 7,5/10
It's Not The Things You Say (feat. Keke Okerlele, dos Bloc Party) - A faixa tem muita influência blocparty-iana. (Aqueles pianos!) É uma faixa de breaks, um bom uso da voz do vocalista dos Bloc Party, sem nada de mais a acrescentar. 8/10
Fresh Fruit - Começa com a apresentação do tema. Adiciona-se um esquema de batida. E outro. E uns efeitos. Bem, a melodia é interessante, mas esta faixa assemelha-se demasiado com um how-to para produzir EDM. Segue exactamente o mesmo esquema (se bem que esta bem mais trabalhada) de uma faixa pouco conhecida do Tiësto, de 1998, sob a alias Roze, Our Love. 7/10
Century (feat. Calvin Harris) - Fácil e vulgar. Ok, tem partes interessantes, fica no ouvido, o Calvin Harris não fica fora do contexto...mas não há faísca nenhuma na faixa. 6,5/10
Feel It In My Bones (feat. Tegan and Sara) - Agora sim. O vocal é delicioso, o início é muito bom...Isto aqui vale a pena. Liga tudo na perfeição. 9/10
Who Wants To Be Alone (feat. Nelly Furtado) - O início é demasiado influenciado pelo Lady Gaga, o que provoca logo uma desilusão numa faixa em que a vocalista convidada é a Nelly Furtado. Aliás, aqui o melhor da faixa é a voz, o instrumental é vulgar. Seria uma faixa medíocre se aquele devaneio "I'm out of my head.." não fosse algo com conteúdo. 6/10
LA Ride - É audível...tem até alguma qualidade. Mas não há nada que a faça ficar na memória, com a excepção da repetição incessante da guitarra. 6/10
Bend It Like You Don't Care - Isto é...não sei bem, techno? É mais rápido e agressivo que house, mas não tem praticamente nenhum elemento para que possa ser considerar tech-trance. Seja como for, é uma faixa original, que chama a atenção. Certamente resulta bem em qualquer dancefloor. 7/10
Knock You Out (feat. Emily Haines) - Esta faixa junta (quase) tudo. É energética, o vocal imprime ritmo e está muito bem conseguido, tem uma melodia rica. Isto é o que uma faixa vocal com o objectivo de chamar as atenções num set devia ser, e não um "When Love Takes Over" qualquer. Talvez a avaliação que vou atribuir a esta faixa seja influenciada pelo facto de eu achar esta faixa quase perfeita, pelo que acho um 8,5/10 bastante razoável.
Louder Than Boom - Um instrumental bastante original, com o breakdown a incorporar uns sons que fazem lembrar as consolas da Atari. Uma boa aproximação a um electro/tech-house. 7,5/10
And finally...
Surrounded By Light - Um outro adequado depois de 16 faixas. Acho que deve resultar bem ao nascer do sol, naqueles momentos todos Zen e tal. Acho que a faixa está bem trabalhada. 8/10
Ainda uma pequena nota sobre as faixas bónus:
Organised Chaos - a irmã pobre da Louder Than Boom. Um nada desinspirada, vulgar. 6/10
Bad Behaviour (feat. Dizzie Rascal) - Quando o Tiësto decide gravar os seus problemas de flatulência e o Dizzie Rascal julga-se inspirado, o resultado é...Bad Behaviour. Don't try this at home.
Conclusão: o álbum é uma desilusão. Não por o Tiësto ter mudado de estilo (o pouco que resta de trance aqui foi reduzido à velocidade de muitas das faixas e algumas características melódicas), mas pela curta duração das faixas, muitas delas tornando o álbum mediano, claramente produzido com o intuito do Tiësto ter alguma visibilidade no mercado americano, sobretudo através da vertente indie (Emily Haines - vocalista dos Metric, Bloc Party e outros). Alguns dos produtores do álbum foram o Danja, protegido do Timbaland, Marcella Araica, alguns produtores de popstars como a Britney.
Avaliação final: 6,5/10. Meh.



